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Suíte

08/11 - 29/11/2014

Renata De Bonis

“Não há salvação possível fora da imitação do silêncio. (…)”
E. M. Cioran

 

Em rota contrária à verbosidade das cidades e suas narrativas espetaculares o trabalho de Renata De Bonis tem se desenvolvido por meio de um rebaixamento de expectativas. Com vocação para o ermo e o trato naturalista comum ao geólogo para com as coisas, o que encontramos em sua obra são as qualidades reservadas ao exercício do retiro e a capacidade de devolver às paisagens e detalhes antes insignificantes toda sua potencialidade.

A partir de dois gestos que exploram com novo ímpeto sua conhecida verve, “Suíte” nasce sob o signo do silêncio. O primeiro se vale de uma apropriação literal que materializa o vocábulo para servir a uma grande instalação no topo da casa, em um jogo de linguagem que ventila mais de uma possibilidade semântica. O segundo intervém de forma a subtrair conteúdo arquitetônico, e lima possíveis respostas ao abrir no piso de um quarto uma desconcertante angulação. Um se alça acima e carrega o campo expositivo para toda a região que o cerca, já o outro se atira em direção ao solo e recolhe-se a um ponto específico.

Se das ações que lhe dão forma já revela-se o seu elã negativo, deixa claro desde o princípio o tento de pensar contra si mesma. Logo que age é para sugerir a necessidade de uma afonia aguda e um corte oblíquo no que tomamos como certo e fundamental. Essa tensão nos arremessa num embate indissolúvel entre o inoportuno de vir ao mundo e a tentação de existir. É como se fosse necessário se movimentar para chegar ao Nada, em um balanço que interroga sua própria condição ao passo que se deixa atrair pelo brilho e amplidão do vazio.

Os outros trabalhos que compõem esta mostra surgem na fenda que se abre destas marcações verticalmente opostas. “Parte #3” e “Parte #4” são coleções dos resíduos retirados do chão. Os pedaços de concreto e terra antes empregados na ossatura do subterrâneo ganham a superfície numa operação que maneja deliberadamente os ciclos de construção e demolição para reprogramar a distribuição de papéis na narrativa do comum. São volumes que ao mesmo tempo remetem a pequenos acidentes geográficos e apontam para o futuro do sítio em que se encontram: um enorme canteiro de obras que mais tarde dará origem a grandes edificações.

Em “Parte #5″ as noções cartográficas da casa se misturam. O segundo andar, espaço que permanece velado sempre que há visitas, é trazido para o centro social pela mediação de dispositivos normalmente utilizados como instrumentos de segurança. Nos monitores o que vemos é uma mitologia do esquecimento, capaz de criar um tecido no qual torna-se possível interpretar a história do local. Nesse sentido, Renata faz conhecer as minúcias prosaicas de uma habitação antiga – cedida como empréstimo por um curto período e a ser sequencialmente demolida; e traz à tona as negociações que permitem que a própria exposição possa acontecer.

Como peça única dividida em diferentes partes – tudo à disposição de uma nomenclatura genérica – esta suíte pode ser a da conotação da música, geografia ou do ambiente doméstico. De toda forma, trata-se de uma incursão – fruto de quase um ano de frequência no lugar – cujos desdobramentos apontam sempre para a vacuidade em detrimento da possibilidade única do discurso apalavrado; e que afirma que o que lhe é possível dizer será sempre menos importante do que o que cala; do que suas profundidades silenciosas.

 

Germano Dushá